Para comemorar o aniversário do poeta, este site oferece uma compilação de trechos de crônicas, entrevistas e depoimentos do poeta em palestras, vídeos e imprensa. Na seção Fontes, são apresentadas as referências das quais os trechos foram compilados e um link para o texto completo, se disponível.
Por serem histórias originalmente narradas pelo próprio Gullar, optou-se pela manutenção da primeira pessoa, para preservar o máximo da expressividade, do bom-humor e do alto astral com que o poeta conta seus causos.
As histórias estão distribuídas em categorias apenas para facilitar o acesso e a leitura e não representam uma tentativa de classificação da vida, nem da obra do poeta.
O poeta Ferreira Gullar faz aniversário e quem ganha presente somos nós, seus leitores. E que presentão: o lançamento de Em alguma parte alguma, com o capricho que a Editora José Olympio sempre dedica às suas publicações.
E o novo livro é novo novo. Não foge à regra gullariana de todo novo livro com muitas surpresas, temas novos, temas recorrentes revisitados, sempre com a técnica apurada em mais de sessenta anos de ofício e a magia da alquimia poética própria do Gullar.
O título do livro, tirado do poema Uma corola, em um primeiro momento, causa um estranhamento, pela contradição lógica entre "alguma parte" e "parte alguma", reunidos no mesmo sintagma. No poema, o sintagma subverte a lógica do sistema da língua e constrói novo sentido com uma corola vermelho-queimado metálica que
......não está em nenhum jardim
.................em nenhum jarro
.................da sala
.................ou na janela
......não cheira
......não atrai abelhas
......não murchará
.................apenas fulge
.................em alguma parte alguma
.................da vida
A subversão do lógico e do ilógico, em uma constante reflexão de mãos dadas com a matéria imediata e tangível das pessoas e das coisas, é recorrente em Alguma parte alguma, desde o poema que abre o livro, intitulado Fica o não dito por dito, que, em entrevista, Gullar "explicou":
-Já que não posso dizer o que quero dizer, faz de conta que eu disse...
Fica o não dito por dito trata do desafio insuperável de o poeta dizer o indizível:
......mas
...............dizer o quê?
.....dizer
...............olor de fruta
.....cheiro de jasmim?
.....mas
...............como dizê-lo
......se a fala não tem cheiro?
......por isso é que
........................dizê-lo
........................é não dizê-lo
......embora o diga de algum modo
......pois não calo
A subversão da ordem e da desordem atinge o próprio poeta, revisitando o questionamento estético-social dos versos finais de Não há vagas, de Dentro da noite veloz:
......- porque o poema, senhores,
......está fechado:
......"não há vagas"
......Só cabe no poema
......o homem sem estômago
......a mulher de nuvens
......a fruta sem preço
..................O poema, senhores,
..................não fede
..................nem cheira
que reaparecem, no poema Desordem, como reflexão também sobre a própria linguagem, que é não mais que rumor, barulhos:
......mas a fala
......é só rumor
......e ideia
............não exala
............odor
......(como a pera)
......pela casa inteira
......a fala, meu amor,
......não fede
......nem cheira
Há muito mais em Alguma parte alguma... Não há mais bombas no Vietnã, mas há foguetes Tomahawk caindo sobre Bagdá, jasmineiros, cheiros e cores, terra escura, galos no quintal, o gatinho, insetos (mais complexos que um poema), peras e bananas podres, carnes e ossos (aliás, muitos ossos), Santiago do Chile, a quitanda do sr. Newton Ferreira (que gargalha com o inusitado acidente da moça), tempo cósmico na perspectiva de galáxias, homens e moscas, morte e vida por toda parte... ou em parte nenhuma?
Tudo indagado, no limite da ordem e da desordem, pelo nosso velho e sempre jovem Gullar.
Como diz Franklin de Oliveira,
Ferreira Gullar não faz poesia. A poesia é que faz Ferreira Gullar.
É ler pra crer!